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O Momento Crítico que Ninguém Testa: Aceitação de Sistemas de Sprinklers


Imagine um edifício com sistema de sprinklers recém-instalado, aprovado pelo Corpo de Bombeiros, liberado para ocupação. Na primeira ocorrência de incêndio, os chuveiros não operam. A água não chega ao foco. As válvulas estavam fechadas. A bomba não atingia a pressão nominal. Os bicos eram incompatíveis com o risco da edificação. Ninguém testou nada além do papel. Esse cenário não é ficção — é o retrato de uma lacuna crítica que a obra “Aceitação de Sistemas de Sprinklers”, de Deives Junior de Paula, veio preencher.

Desenvolvida como dissertação de mestrado no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e vencedora do 2º Prêmio do Instituto Sprinkler Brasil, esta pesquisa propõe algo que surpreende pela ausência: requisitos e critérios mínimos para liberação do uso e operação de sistemas de sprinklers. Seu impacto foi tão direto que várias de suas sugestões foram incorporadas à revisão da ABNT NBR 10897, no Capítulo 10 — “Aceitação dos Sistemas”.

O Problema: 86% das Falhas Antes da Operação

A pesquisa parte de um dado contundente. Dados da NFPA mostram que os sistemas de sprinklers operam em 91% das ocorrências de incêndio nos Estados Unidos, com redução de 83% no número de civis mortos e 63% nas perdas patrimoniais. Mas quando falham, as causas remontam a erros cometidos muito antes do incêndio — na fase de projeto e instalação.

Deives Paula construiu um Diagrama de Ishikawa específico para sistemas de sprinklers e identificou as falhas mais frequentes no cenário brasileiro. O resultado é revelador: 86% dos principais problemas estão associados às fases de projeto e implantação, conduzidas em grande parte por empresas instaladoras.

86%
Das falhas em projeto + implantação
59%
Das falhas na implantação
27%
Das falhas no projeto

As falhas catalogadas vão desde materiais sem conformidade até a não realização dos testes de aceitação. Passando por classificação de risco incompatível, projetos apenas orientativos sem detalhes construtivos, falta de gestão e supervisão na execução, ausência de projeto “Como Construído” (As Built) e soluções improvisadas na instalação.

A Solução: Três Ensaios que Não Podem Ser Ignorados

O livro propõe que a aceitação formal dos sistemas seja conduzida em três ensaios obrigatórios, baseados na ABNT NBR 10897, na NBR 15575-6 e na NFPA 25:

1. Ensaio Hidrostático

Toda a tubulação e acessórios devem ser ensaiados a 1.380 kPa (13,6 bar / 200 psi) e manter essa pressão por 2 horas sem perdas. Partes sujeitas a pressões superiores a 1.040 kPa devem ser testadas a 350 kPa acima da pressão de trabalho. Não é admitido o uso de aditivos ou substâncias corrosivas para estancar vazamentos. A tubulação de recalque do Corpo de Bombeiros deve seguir as mesmas condições.

2. Ensaios Operacionais do Sistema

Incluem: teste dos detectores de fluxo (alarme em até 5 minutos), operação das válvulas de dilúvio e pré-ação conforme manual do fabricante, teste do dreno principal com registro de pressões estática e residual, operação completa de hidrantes e válvulas sob pressão, e ensaio de válvulas redutoras de pressão com e sem fluxo.

3. Ensaios de Desempenho do Sistema de Bombeamento

As bombas devem atender requisitos rigorosos: sem vazão, a pressão máxima não deve ultrapassar 40% da nominal (bombas horizontais) ou 20% (carcaça bipartida). A 150% da vazão nominal, a bomba deve manter no mínimo 65% da pressão nominal. Ensaios semanais de funcionamento e anuais de desempenho completam o roteiro.

Ensaio Parâmetro-chave Critério
Hidrostático Pressão e estanqueidade 1.380 kPa por 2 h sem perdas
Operacional Alarme de fluxo Até 5 min após abertura do dreno
Bomba (150% Q) Pressão residual Mínimo 65% da pressão nominal
Bomba (0% Q) Pressão máxima Máximo 40% acima da nominal

A Metodologia: Desempenho Aplicado a Sprinklers

O grande mérito do trabalho está na abordagem metodológica. O autor adapta o conceito de desempenho da NBR 15575-6 (edificações habitacionais) para os sistemas de sprinklers, seguindo o método de Ilha (1993): caracterizar os usuários, definir necessidades e exigências, identificar condições de exposição, definir requisitos qualitativos de desempenho, estabelecer critérios quantitativos e métodos de avaliação.

O resultado é uma proposta de 27 requisitos com critérios e métodos de avaliação específicos para sistemas de tubo molhado em edificações de risco leve — que representam a grande maioria das instalações no Brasil (escolas, hospitais, hotéis, escritórios).

As Falhas Mais Frequentes no Brasil

  • Não realização dos testes de aceitação e ensaios operacionais
  • Falta de gestão e supervisão durante a execução
  • Projeto orientativo, sem detalhes construtivos
  • Especificação de materiais insuficiente ou inadequada
  • Classificação de risco incompatível com a área protegida
  • Falta de atualização do projeto “As Built”
  • Recomendações de uso e manutenção não entregues ao usuário

O Impacto: de 87% para 99,9% de Confiabilidade

Os números falam por si. Com a aplicação dos requisitos e critérios propostos, o autor estima:

  • 82% de mitigação das falhas prováveis na concepção dos sistemas no cenário brasileiro
  • 12,54% de mitigação das falhas identificadas no diagrama de probabilidades da NFPA
  • Ampliação da taxa de sucesso de 87,36% para 99,9% no controle e extinção de incêndios

Em outras palavras: a aplicação sistemática de um roteiro de aceitação pode praticamente eliminar as falhas evitáveis que comprometem o desempenho dos sprinklers quando mais se precisa deles.

Aceitação no Brasil: Documental, Simplista e Perigosa

O autor é incisivo: “a aceitação dos sistemas prediais hidráulicos de combate a incêndio no cenário brasileiro é realizada de maneira simplista e expedita e, em muitos casos, apenas na forma documental”. Isso acontece por dois motivos: o desconhecimento dos usuários sobre a importância desse evento e a ausência de clareza nas normas e regulamentações vigentes.

O livro propõe que a aceitação seja conduzida em quatro fases, inspiradas na NFPA 3 (Comissioning): planejamento, projeto, construção e ocupação. Cada fase com registros documentados, ocorrências catalogadas, desvios identificados e medidas corretivas adotadas — tudo validado por profissionais habilitados.

“O sistema de proteção contra incêndio por chuveiros automáticos é de fundamental importância para o uso e ocupação da edificação a que se destina, desde que devidamente integrado ao sistema global de segurança contra incêndio.”
— Deives Junior de Paula, Conclusão

Além do Livro: A Agenda que Falta

O autor reconhece que sua proposta não cobre tudo. As falhas remanescentes dependem de ações estruturais: determinação de competências mínimas para profissionais de instalação, certificação de empresas instaladoras e elaboração de uma norma de comissionamento integrado que una sistemas ativos e passivos — algo que o Brasil ainda não possui.

O Projeto Brasil Sem Chamas, coordenado pelo IPT, já apontava essa direção: “a carência de avaliação de conformidade para instalações de sistemas e a necessidade de se buscar algum tipo de avaliação de conformidade para os profissionais que atuam na área”.

Este livro é, portanto, mais que uma tese acadêmica. É uma ferramenta prática para projetistas, instaladores, fiscalizadores e gestores de edificações. Proporciona checklists, formulários de registro e roteiros de ensaio que transformam a aceitação de um evento burocrático em um processo técnico verificável — e que pode fazer a diferença entre um sistema que salva vidas e um que apenas consta no Auto de Vistoria.

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Conteúdo baseado em “Aceitação de Sistemas de Sprinklers” — Deives Junior de Paula • Instituto Sprinkler Brasil, 2016



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