Sumário
ToggleO Fogo nos Céus: Por Que Edifícios Altos São o Maior Desafio da Segurança Contra Incêndio
Baseado na obra de Rogério Bernardes Duarte, Rosaria Ono e Silvio Bento da Silva — mais de 20 anos de pesquisa sobre incêndios em edifícios altos

Quando o fogo irrompe no 12º pavimento de um edifício de 25 andares, os primeiros cinco minutos decidem tudo. Enquanto as chamas sobem pelos dutos, a fumaça tóxica invade corredores e a temperatura interna ultrapassa 600°C, centenas de vidas dependem de decisões tomadas em segundos. É esse o cenário que o livro “Problemática de Incêndio em Edifícios Altos” dissecou com rigor científico e experiência de campo ao longo de mais de duas décadas de pesquisa.
Escrito por três autoridades de peso — um ex-Comandante do Corpo de Bombeiros de São Paulo, uma professora titular da FAU/USP e um coronel especialista em operações de combate —, a obra é referência obrigatória para engenheiros, arquitetos e profissionais de segurança que projetam, constroem ou gerenciam edifícios altos no Brasil e no mundo.
Uma Trajetória que Começou nos Anos 1990
Este livro não nasceu de uma pesquisa acadêmica isolada. Seus autores iniciaram o trabalho no início da década de 1990, concluíram uma primeira versão em 1997 e, após mais de 20 anos de revisões, atualizações e novas referências, lançaram esta edição definitiva em 2021. A obra já serviu de base para os Manuais Técnicos de Bombeiros (MTB) nº 16 e 32 do Corpo de Bombeiros da PMESP, utilizado na formação de gerações de bombeiros.
A fundamentação parte de um texto da IFSTA (International Fire Service Training Association), traduzido e minuciosamente adaptado à realidade brasileira, aliado à experiência direta dos autores em incêndios reais. O resultado é uma obra de 178 páginas que cobre 17 capítulos, do comportamento do fogo à prevenção em megatorres.
Os Números que Alarmam
Incêndios/ano em edifícios altos nos EUA
Vítimas fatais no Ed. Joelma (1974)
Pavimentos/minuto — velocidade de propagação por fachada
Pesquisa da NFPA aponta que, entre 2009 e 2013, os Corpos de Bombeiros dos EUA responderam a uma média de 14.500 incêndios estruturais por ano em edifícios altos, resultando em 40 vítimas fatais, 520 feridos e US$ 154 milhões em danos à propriedade. No Brasil, a história é ainda mais dramática: o Edifício Joelma (1974) matou 189 pessoas; o Andraus (1972), 16; e mais recentemente, o Wilton Paes de Almeida (2018) desabou em chamas no centro de São Paulo.
O Que Torna o Incêndio em Edifícios Altos Único
O livro identifica uma série de problemas específicos que diferenciam fundamentalmente o combate a incêndios em edifícios altos. A localização do fogo, aparentemente simples em edificações de pequeno porte, torna-se um desafio crítico. A fumaça pode expandir por pelo menos três pavimentos além do foco, informações de testemunhas podem ser imprecisas e alarmes podem apontar pavimentos errados devido ao “efeito cogumelo”.
O Efeito Cogumelo e a Propagação Vertical
Os gases quentes sobem através de aberturas verticais — poços de elevadores, escadas, dutos de ar condicionado — e preenchem pavimentos superiores com fumaça e calor. O livro alerta: fachadas com painéis combustíveis podem fazer o fogo escalar até 7 pavimentos por minuto. Foi exatamente o que aconteceu no Grenfell Tower, em Londres (2017), onde 79 moradores morreram após o fogo se propagar do 4º ao último andar pela fachada revestida com painéis de alumínio e polietileno.
“Não basta ser esbelto, térmico, acústico e estanque se não for seguro.”
— Rogerio Lin, sobre materiais inovadores na construção
Calor: O Inimigo Invisível
O calor é o grande responsável pelos prejuízos em um incêndio e o livro dedica um capítulo inteiro ao seu comportamento. A transmissão ocorre em seis direções por condução, convecção e radiação. O confinamento térmico, típico de edifícios modernos herméticos com fachadas de vidro, impede a dissipação natural do calor, criando condições para fenômenos críticos como o flashover (ignição generalizada) e o backdraft (explosão por reintrodução súbita de oxigênio).
O corpo humano é afetado negativamente acima de 37°C, podendo ocorrer desidratação, exaustão, câimbra e até acidente vascular cerebral. Um bombeiro só deve entrar em atmosferas acima de 50-55°C com equipamento de proteção individual completo.
Fumaça e Gases: O Verdadeiro Assassino
Dados históricos apresentados na obra mostram que a maioria das vítimas fatais em incêndios em edifícios altos morre por intoxicação, não por queimaduras. No Hotel Corona de Aragón (1979), 76 pessoas morreram — a maioria intoxicada por monóxido de carbono. No Hotel Caledonien (1986), todas as 14 vítimas fatais foram intoxicadas por CO. A fumaça de materiais sintéticos como poliuretano e policarbonato, presentes em todo edifício moderno, é altamente tóxica.
O livro detalha a estratificação da fumaça e dos gases quentes, explicando como a expansão horizontal e vertical ocorre e por que sistemas de controle de fumaça devem ser acionados rapidamente para evitar consequências fatais.
A Evacuação: Uma Corrida Contra o Tempo
O capítulo sobre risco à vida aborda problemas críticos de evacuação em edifícios altos. No WTC (1993), 50.000 funcionários desceram 110 pavimentos pela escada escura após atentado terrorista. O livro discute a capacidade das saídas, pavimentos de descarga, áreas de refúgio e o papel crucial das escadas pressurizadas — tema de um capítulo próprio que detalha os sistemas de pressurização e seus equipamentos.
| Incêndio | Local | Ano | Vítimas Fatais |
|---|---|---|---|
| WTC Torres Gêmeas | Nova York, EUA | 2001 | 2.753 |
| Ed. Joelma | São Paulo, Brasil | 1974 | 189 |
| MGM Grand Hotel | Las Vegas, EUA | 1980 | 85 |
| DuPont Plaza Hotel | Puerto Rico | 1986 | 97 |
| Grenfell Tower | Londres, Inglaterra | 2017 | 79 |
| Ed. Andraus | São Paulo, Brasil | 1972 | 16 |
Logística, Coordenação e Comunicação
Três capítulos interligados tratam dos maiores desafios operacionais durante o combate. O transporte de equipamentos por escadas, a fadiga dos bombeiros, o revezamento de guarnições e a necessidade de constante hidratação são detalhados com precisão cirúrgica. A obra enfatiza que guarnições em número insuficiente são um dos maiores fatores de prejuízo em incêndios de edifícios altos.
O livro apresenta o Sistema de Comando de Incidente (ICS), criado nos EUA e adotado mundialmente, incluindo o SICOE do Corpo de Bombeiros de São Paulo. O Posto de Comando, os postos secundários, a coordenação de órgãos de ajuda mútua e os desafios de rádio comunicação em estruturas de concreto são abordados com profundidade operacional.
“Os primeiros cinco minutos de incêndio são mais importantes para o Corpo de Bombeiros do que as próximas 5 horas.”
— Problemática de Incêndio em Edifícios Altos, Cap. 10
Suprimento de Água e Sistemas de Proteção
O capítulo sobre suprimento d’água aborda desde a rede de tubulação até a operação de sprinklers. O livro alerta para sistemas deteriorados, inoperantes ou com pressão inadequada — problema que foi fatal no incêndio do One Meridian Plaza (1991), na Filadélfia, onde três bombeiros morreram após o sistema de suprimento falhar. O fogo se propagou por 9 pavimentos até ser contido por um andar protegido por sprinklers.
A importância dos chuveiros automáticos é reforçada por dados da NFPA: edifícios altos são mais propensos a terem construções resistentes ao fogo e sprinklers do que edificações menores, e tais proteções ajudam a prevenir a propagação.
O Futuro: Megatorres e Novos Desafios
O capítulo final dedica atenção especial aos edifícios cada vez mais altos — os chamados “Super Altos” e “Mega Altos”. O livro traz o ranking atualizado dos edifícios mais altos do Brasil, da América Latina e do mundo, e discute como a prevenção contra incêndio deve ser abordada nesses casos. A Torre Abbco em Sharjah (48 andares, 2020) e a Torch Tower em Dubai (86 andares, 2017) ilustram que nem mesmo os edifícios mais modernos estão imunes.
Os autores destacam que em 1990 existiam 10 megacidades no mundo. Projeções indicam que em 2100 esse número alcançará 83, com cidades ultrapassando 80 milhões de habitantes. A verticalização é irreversível, e a segurança contra incêndio precisa acompanhar essa evolução.
Temas Abordados na Obra Completa
- 17 capítulos cobrindo desde incêndios históricos até prevenção em megatorres
- Calor, fumaça e gases quentes — comportamento e controle
- Propagação vertical e horizontal — fachadas, dutos, efeito cogumelo
- Logística de combate — fadiga, equipamentos, revezamento
- Sistema de Comando de Incidente (ICS) — coordenação e comunicações
- Escadas pressurizadas — sistemas e instalações
- Planejamento prévio de incêndio — eficiência, eficácia e efetividade
- Ranking dos edifícios mais altos — Brasil, América Latina e Mundo
Por Que Este Livro É Importante
A obra preenche uma lacuna importante na literatura técnica brasileira. Enquanto normas e regulamentos estabelecem o que deve ser feito, este livro explica o porquê por trás de cada exigência, baseado em décadas de estudo de incêndios reais. Para o engenheiro que projeta sistemas de proteção, para o arquiteto que concebe fachadas e rotas de fuga, para o profissional de segurança que elabora planos de emergência — entender a dinâmica do fogo em altura é simplesmente indispensável.
Como destaca o prefaciador Rogerio Lin: “Mais que um livro, é um guia que pode salvar vidas.”
“O mais gratificante no desenvolvimento deste trabalho foi verificar que nos últimos 30 anos houve um considerável avanço na Segurança Contra Incêndio, em especial no tocante às exigências das regulamentações sobre o assunto e no melhor aparelhamento dos Corpos de Bombeiros, e o mais animador é saber que muito ainda pode ser feito para melhorar ainda mais.”
— Rogério Bernardes Duarte, Rosaria Ono e Silvio Bento da Silva, Introdução
Com ISBN 978-65-5872-074-4 (digital) e 978-65-5872-075-1 (impresso), a obra é patrocinada por empresas líderes em segurança contra incêndio e apoiada institucionalmente por órgãos como o Instituto Sprinkler Brasil (ISB), o Comitê Brasileiro de Segurança Contra Incêndio da ABNT (CB-24), a ABPP e o GSI/NUTAU-USP.
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