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ToggleO que é Carga de Incêndio Específica?

Carga de incêndio específica é o valor que representa a quantidade de energia calorífica potencial dos materiais combustíveis existentes em uma edificação, ocupação, área de risco ou ambiente analisado, dividida pela área de piso considerada.
Ela é expressa em megajoules por metro quadrado (MJ/m²).
Em termos simples, a carga de incêndio específica indica quanto potencial de energia de incêndio existe por metro quadrado de área. Esse valor é usado para classificar o risco, apoiar o enquadramento da edificação e definir o nível de exigência das medidas de segurança contra incêndio.
No Estado de São Paulo, a referência principal é a IT 14/2025 – Carga de incêndio nas edificações e áreas de risco, que estabelece valores característicos de carga de incêndio conforme ocupação e uso específico.
A carga de incêndio específica é um dos dados técnicos mais importantes para leitura normativa, porque conecta o uso real da edificação ao potencial de desenvolvimento de um incêndio.
Qual a diferença entre carga de incêndio e carga de incêndio específica?
A carga de incêndio pode ser entendida como a quantidade total de energia que os materiais combustíveis de uma área podem liberar em caso de queima.
A carga de incêndio específica é essa energia relacionada à área de piso analisada, expressa em MJ/m².
Em termos práticos:
- carga de incêndio: potencial calorífico total;
- carga de incêndio específica: potencial calorífico dividido pela área;
- unidade mais usada no enquadramento: MJ/m².
Essa diferença é importante porque uma área grande pode ter carga total elevada, mas carga específica moderada. Da mesma forma, uma área pequena com muito material combustível pode ter carga específica alta.
Para que serve a carga de incêndio específica?
A carga de incêndio específica serve para classificar o risco e orientar as exigências de segurança contra incêndio.
Ela pode influenciar:
- classificação do potencial de risco;
- definição de medidas de segurança exigidas;
- análise de depósitos e armazenamentos;
- exigência ou dimensionamento de sistemas de proteção;
- enquadramento de Projeto Técnico, PTS, AVCB ou CLCB;
- aplicação de tabelas do Regulamento de Segurança Contra Incêndio;
- elaboração de memoriais técnicos;
- justificativa de ocupações não listadas;
- comparação entre usos semelhantes;
- análise de riscos específicos.
Por isso, a carga de incêndio específica não deve ser tratada como simples número copiado de tabela. Ela deve refletir a ocupação, o uso, a armazenagem e os riscos efetivos da edificação.
Qual norma trata da carga de incêndio específica?
No Estado de São Paulo, a norma aplicável é a IT 14/2025 – Carga de incêndio nas edificações e áreas de risco.
A IT 14/2025 está em vigor desde 20 de março de 2025, conforme a Portaria nº CCB-003/800/25, e substituiu a IT 14/2019.
A norma estabelece valores característicos de carga de incêndio nas edificações e áreas de risco, conforme a ocupação e o uso específico. Também orienta sua aplicação para classificação do risco e determinação do nível de exigência das medidas de segurança contra incêndio.
A IT 14/2025 deve ser lida em conjunto com:
- Decreto Estadual nº 69.118/2024;
- IT 03/2025 – Terminologia;
- IT 01/2025 – Procedimentos administrativos;
- IT 42/2025 – Projeto Técnico Simplificado;
- IT 23/2025 e IT 24/2025, quando houver sistemas de chuveiros automáticos;
- IT 22/2025, quando houver hidrantes e mangotinhos;
- demais ITs aplicáveis à ocupação e aos riscos específicos.
Como a IT 14/2025 determina a carga de incêndio específica?
A IT 14/2025 trabalha com três caminhos principais:
- Anexo A — tabela de cargas de incêndio específicas por ocupação;
- Anexo B — tabela de carga de incêndio relativa à altura de armazenamento, especialmente para depósitos;
- Anexo C — método de cálculo determinístico para levantamento da carga de incêndio específica.
Em regra, a determinação da carga de incêndio específica das edificações utiliza as tabelas dos Anexos A e B, que funcionam como métodos probabilísticos.
O Anexo C é usado em situações em que é necessário levantar a carga real dos materiais combustíveis, especialmente para ocupações específicas, usos não tabelados ou quando a norma exige o cálculo determinístico.
O que é o Anexo A da IT 14/2025?
O Anexo A apresenta a tabela de cargas de incêndio específicas por ocupação.
Essa é a tabela mais consultada por projetistas, consultores e responsáveis técnicos quando a edificação possui ocupação ou uso específico listado.
O procedimento geral é:
- identificar a ocupação da edificação;
- verificar o grupo e a divisão aplicável;
- localizar o uso específico mais compatível;
- consultar o valor de carga de incêndio específica em MJ/m²;
- usar esse valor no enquadramento técnico da edificação.
O Anexo A deve ser usado com cuidado. A ocupação precisa corresponder ao uso real, e não apenas ao CNAE ou à descrição comercial da empresa.
O CNAE define a carga de incêndio?
Não sozinho.
A IT 14/2025 usa a nomenclatura CNAE como referência da atividade desenvolvida na edificação, mas isso não substitui a análise técnica do uso real e dos riscos existentes.
O CNAE pode ajudar a localizar uma atividade na tabela, mas o responsável técnico deve verificar:
- o que realmente acontece na edificação;
- quais materiais combustíveis existem;
- se há depósito;
- se há área de produção;
- se há líquidos inflamáveis;
- se há GLP;
- se há ocupação mista;
- se há armazenamento relevante;
- se o uso específico da tabela corresponde à realidade.
Um erro comum é escolher o CNAE mais conveniente ou o menor valor da tabela sem analisar a edificação.
O que é o Anexo B da IT 14/2025?
O Anexo B apresenta a tabela de carga de incêndio relativa à altura de armazenamento.
Ele é especialmente importante para as ocupações do Grupo J, que envolvem depósitos.
A IT 14/2025 determina que as ocupações do Grupo J devem adotar obrigatoriamente a tabela do Anexo B, relacionada à altura de armazenagem.
Isso significa que depósitos não devem ser avaliados apenas como uma ocupação genérica. A altura de armazenamento, o tipo de material, a organização do estoque e a natureza da mercadoria podem alterar a carga de incêndio específica aplicável.
Por que depósitos exigem cuidado especial?
Depósitos e áreas de armazenamento podem concentrar grande quantidade de material combustível em uma área relativamente pequena.
Além disso, a forma de armazenamento influencia o comportamento do incêndio.
Fatores relevantes:
- altura de armazenagem;
- tipo de mercadoria;
- tipo de embalagem;
- presença de pallets;
- corredores entre estantes;
- armazenamento em blocos;
- racks;
- empilhamento;
- materiais plásticos;
- papel, papelão e embalagens;
- líquidos combustíveis;
- área total do depósito;
- presença ou ausência de sprinklers;
- controle de fumaça;
- acesso para combate.
Por isso, a IT 14 direciona as ocupações do Grupo J para uma análise específica pelo Anexo B.
O que é o Anexo C da IT 14/2025?
O Anexo C apresenta o método de cálculo determinístico para levantamento da carga de incêndio específica.
Esse método é usado quando é necessário calcular a carga com base nos materiais combustíveis efetivamente existentes na área.
A fórmula básica é:
qfi = Σ(Mi × Hi) / Af
Onde:
qfi= carga de incêndio específica, em MJ/m²;Mi= massa total de cada componente combustível, em kg;Hi= potencial calorífico específico de cada componente, em MJ/kg;Af= área de piso considerada para o cálculo, em m².
Esse método exige levantamento dos materiais, massas, potenciais caloríficos e área analisada.
Quando usar o Anexo A, B ou C?
A escolha depende do caso.
| Situação | Caminho mais comum |
|---|---|
| Ocupação listada por uso específico | Anexo A |
| Depósitos e ocupações do Grupo J | Anexo B |
| Explosivos, ocupações especiais ou usos sem valor tabelado | Anexo C |
| Ocupação não listada claramente | Similaridade justificada ou Anexo C, conforme o caso |
| Edificação com múltiplos usos | Avaliação por ocupação/área, conforme a norma |
| Área com armazenamento relevante dentro de outro uso | Verificar se há aplicação do Anexo B ou análise específica |
A decisão deve ser justificada tecnicamente. Não se deve escolher o método que gera menor exigência sem base normativa.
Como usar a tabela de carga de incêndio?
Um roteiro prático para usar a tabela da IT 14/2025 é:
- identificar a ocupação principal da edificação;
- identificar ocupações secundárias ou mistas;
- verificar se há depósito ou armazenamento;
- verificar se a edificação pertence ao Grupo J;
- localizar o uso específico no Anexo A ou aplicar o Anexo B quando necessário;
- conferir se o CNAE é apenas referência ou se corresponde ao uso real;
- registrar o valor em MJ/m²;
- classificar o potencial de risco conforme o Decreto 69.118/2024;
- verificar as medidas de segurança exigidas;
- documentar o critério adotado no memorial ou no projeto.
Esse processo evita enquadramentos frágeis e ajuda a justificar tecnicamente a carga adotada.
Como interpretar valores em MJ/m²?
O valor em MJ/m² representa a energia potencial liberável por metro quadrado de área de piso.
O Decreto Estadual nº 69.118/2024 classifica o potencial de risco pela carga de incêndio da seguinte forma:
| Potencial de risco | Carga de incêndio |
|---|---|
| Baixo | até 300 MJ/m² |
| Médio | acima de 300 até 1.200 MJ/m² |
| Alto | acima de 1.200 MJ/m² |
Essa classificação ajuda a interpretar a severidade potencial do incêndio, mas deve ser aplicada no contexto correto.
A carga de incêndio não substitui a análise de ocupação, altura, área, lotação e riscos específicos.
Carga de incêndio baixa significa edificação simples?
Não necessariamente.
Uma carga de incêndio baixa indica menor potencial calorífico por metro quadrado, mas a edificação ainda pode exigir medidas relevantes por outros fatores, como:
- grande lotação;
- altura elevada;
- risco específico;
- ocupação vulnerável;
- subsolo;
- local de reunião de público;
- serviços de saúde;
- dificuldade de abandono;
- necessidade de compartimentação;
- exigências do Regulamento.
Portanto, a carga de incêndio é uma variável importante, mas não é a única.
Atividade de baixo risco é a mesma coisa que carga de incêndio baixa?
Não.
Essa é uma confusão frequente.
A carga de incêndio baixa é uma classificação técnica baseada em MJ/m².
A atividade econômica de baixo risco é uma classificação administrativa relacionada ao licenciamento de atividades, regulada por atos normativos específicos.
Uma edificação pode ter carga de incêndio baixa e ainda assim exigir análise por ocupação, área, altura, lotação ou risco específico.
Da mesma forma, uma atividade econômica não deve ser considerada dispensada apenas porque sua carga de incêndio é baixa.
Exemplo simples usando tabela
Imagine uma edificação comercial com uso específico claramente listado no Anexo A da IT 14/2025.
O responsável técnico deve:
- identificar o grupo de ocupação;
- localizar o uso específico;
- confirmar se o uso real corresponde ao item da tabela;
- adotar o valor tabelado em MJ/m²;
- registrar o valor no projeto ou memorial;
- usar o valor para classificação do risco e verificação das medidas exigidas.
Se houver depósito relevante dentro da edificação, a análise pode precisar separar a área de armazenamento e verificar se o Anexo B se aplica.
Exemplo simples de cálculo determinístico
Considere um ambiente de 100 m² com os seguintes materiais:
| Material | Massa | Potencial calorífico | Energia |
|---|---|---|---|
| Papel | 300 kg | 17 MJ/kg | 5.100 MJ |
| Madeira | 200 kg | 19 MJ/kg | 3.800 MJ |
| Plástico | 100 kg | 40 MJ/kg | 4.000 MJ |
Energia total:
5.100 + 3.800 + 4.000 = 12.900 MJ
Carga de incêndio específica:
qfi = 12.900 / 100
qfi = 129 MJ/m²
Esse exemplo é apenas didático. Em um memorial real, os materiais, massas e potenciais caloríficos devem ser levantados de forma técnica, com base nos critérios da IT 14/2025.
Como calcular carga de incêndio específica pelo Anexo C?
O cálculo determinístico segue a lógica:
- delimitar a área de piso analisada;
- listar todos os materiais combustíveis relevantes;
- determinar a massa de cada material;
- identificar o potencial calorífico específico de cada material;
- multiplicar massa por potencial calorífico;
- somar todas as energias;
- dividir pela área de piso;
- apresentar resultado em MJ/m²;
- comparar com o enquadramento normativo;
- registrar a memória de cálculo.
Esse cálculo exige organização. O resultado depende diretamente da qualidade do levantamento de materiais.
O que é potencial calorífico específico?
Potencial calorífico específico é a quantidade de energia liberada pela combustão de determinada massa de material.
Em geral, é expresso em MJ/kg.
Exemplo:
- papel possui determinado potencial calorífico;
- madeira possui outro;
- plásticos podem ter valores mais elevados;
- tecidos, borrachas, líquidos e espumas podem variar bastante.
No cálculo determinístico, o potencial calorífico é multiplicado pela massa do material para estimar a energia total daquele componente.
Como levantar a massa dos materiais?
A massa dos materiais pode ser levantada por diferentes meios, conforme o caso:
- inventário físico;
- notas fiscais;
- fichas técnicas;
- massa unitária dos produtos;
- quantidade de itens armazenados;
- peso por embalagem;
- densidade dos materiais;
- planilhas de estoque;
- informações do fabricante;
- medição de volume e conversão por densidade;
- estimativa técnica justificada.
O levantamento deve ser rastreável. Estimativas sem critério podem comprometer a validade do cálculo.
Qual área usar no cálculo?
A área usada no cálculo é a área de piso considerada na análise.
A escolha da área deve ser coerente com a ocupação, o ambiente ou o módulo analisado.
A IT 14/2025 prevê critérios para o levantamento determinístico e para áreas ou módulos de análise. O responsável técnico deve observar a regra aplicável ao caso.
O erro comum é dividir a energia dos materiais por uma área maior do que a área real em que eles estão concentrados, reduzindo artificialmente o valor em MJ/m².
Carga de incêndio média pode esconder risco?
Sim.
Quando materiais combustíveis estão concentrados em uma área pequena, a média por toda a edificação pode esconder um risco local elevado.
Exemplo: um prédio administrativo com pequeno almoxarifado pode ter carga média baixa se toda a área for considerada, mas o almoxarifado pode apresentar carga específica elevada.
Por isso, a análise deve verificar ocupações secundárias, depósitos, salas técnicas, estoques e áreas de risco.
Ocupação mista e carga de incêndio específica
Edificações com ocupação mista exigem cuidado especial.
Exemplos:
- loja com depósito;
- escola com auditório;
- hotel com restaurante;
- indústria com área administrativa;
- hospital com almoxarifado;
- shopping com cinema;
- edifício comercial com estacionamento;
- centro logístico com escritório.
Nesses casos, não basta adotar um único valor para toda a edificação sem verificar se as áreas possuem usos e riscos distintos.
O responsável técnico deve avaliar cada ocupação, área de risco e uso específico conforme o Regulamento e a IT 14.
Carga de incêndio em lojas
Lojas podem variar bastante.
Uma loja de roupas, uma loja de móveis, uma papelaria, uma loja de eletrônicos, uma farmácia e uma loja de materiais de construção não possuem necessariamente a mesma carga de incêndio.
A tabela do Anexo A ajuda a localizar valores por uso específico, mas o responsável técnico deve verificar se o item selecionado representa adequadamente a atividade real.
Também é importante verificar se existe depósito nos fundos, mezanino, estoque vertical, área de embalagem ou armazenamento de produtos inflamáveis.
Carga de incêndio em escritórios
Escritórios costumam ter mobiliário, papel, equipamentos, divisórias, carpetes, materiais plásticos e arquivos.
Em muitos casos, a carga pode ser obtida por tabela. Porém, ambientes com arquivo físico, grandes almoxarifados, biblioteca técnica ou estoque de materiais podem exigir atenção adicional.
O erro é tratar todo escritório como uso simples, ignorando áreas internas com materiais combustíveis concentrados.
Carga de incêndio em depósitos
Depósitos são o ponto mais crítico para esse tema.
A análise deve verificar:
- Grupo J;
- altura de armazenamento;
- tipo de mercadoria;
- embalagem;
- arranjo de armazenagem;
- área de estoque;
- uso de pallets;
- racks;
- corredores;
- materiais plásticos;
- presença de líquidos;
- carga de incêndio pelo Anexo B;
- relação com IT 24 e NBR 16981 quando houver sprinklers.
A carga de incêndio de depósitos pode influenciar diretamente exigências de sistemas hidráulicos e automáticos.
Carga de incêndio em indústrias
Indústrias podem ter áreas administrativas, produtivas, depósitos, utilidades, laboratórios, expedição, manutenção e áreas técnicas.
A carga de incêndio pode variar por setor.
A análise deve diferenciar:
- matéria-prima;
- produto acabado;
- embalagem;
- resíduos;
- líquidos combustíveis;
- painéis e máquinas;
- áreas de processo;
- áreas de armazenagem;
- escritórios;
- utilidades.
A tabela pode ajudar, mas o uso real e os riscos específicos precisam ser avaliados.
Carga de incêndio em escolas
Escolas podem incluir salas de aula, bibliotecas, auditórios, laboratórios, cozinhas, depósitos, arquivos, quadras e áreas administrativas.
Cada ambiente pode ter características diferentes.
Uma biblioteca ou almoxarifado escolar, por exemplo, pode ter carga superior à de uma sala de aula comum.
A análise deve considerar ocupação principal e áreas específicas.
Carga de incêndio em hospitais
Hospitais e serviços de saúde possuem áreas críticas e uso complexo.
Há quartos, corredores, farmácias, almoxarifados, laboratórios, cozinhas, lavanderias, arquivos, áreas técnicas, gases medicinais e equipamentos.
Além da carga de incêndio, a dificuldade de abandono de pacientes pode aumentar a exigência técnica da análise.
A carga de incêndio específica deve ser interpretada em conjunto com a ocupação e as medidas exigidas para serviços de saúde.
Carga de incêndio em locais de reunião de público
Locais de reunião de público podem incluir auditórios, teatros, cinemas, templos, casas de shows, restaurantes, bares, salões e centros de eventos.
Nesses casos, além da carga de incêndio, a lotação e a velocidade de abandono são fatores decisivos.
Materiais de acabamento, mobiliário, cenografia, cortinas, painéis acústicos e equipamentos podem influenciar o risco.
A análise deve integrar IT 14, IT 10, IT 11, IT 17, IT 18, IT 19 e IT 20, conforme o caso.
Carga de incêndio em garagens
Garagens possuem veículos, combustíveis, pneus, plásticos, óleos, baterias e materiais diversos.
A carga de incêndio deve ser avaliada conforme a ocupação e o uso específico, mas também considerando subsolos, ventilação, rotas de fuga, hidrantes, detecção, controle de fumaça e riscos complementares.
Em edifícios com garagens, a área de garagem pode ter tratamento distinto da área residencial, comercial ou administrativa.
Carga de incêndio e sprinklers
A carga de incêndio pode influenciar a exigência ou o dimensionamento de sistemas de chuveiros automáticos, conforme o regulamento e as ITs aplicáveis.
Em áreas de armazenamento, a relação entre carga de incêndio, tipo de mercadoria, altura de armazenagem, arranjo do estoque e sprinklers é especialmente importante.
A análise pode envolver:
- IT 23/2025;
- IT 24/2025;
- NBR 10897;
- NBR 16981;
- classificação de mercadorias;
- altura de armazenamento;
- densidade de projeto;
- área de aplicação;
- cálculo hidráulico.
A carga de incêndio não é o único dado para sprinkler, mas é parte da leitura do risco.
Carga de incêndio e hidrantes
A carga de incêndio pode influenciar o nível de exigência de sistemas de hidrantes e mangotinhos, conforme a ocupação, área, altura e risco.
O sistema de hidrantes deve ser analisado pela IT 22/2025, com dimensionamento hidráulico próprio.
A carga de incêndio ajuda a compreender a severidade do risco, mas não substitui o cálculo hidráulico nem os parâmetros específicos do sistema.
Carga de incêndio e extintores
Extintores são escolhidos conforme classe de incêndio, risco, capacidade extintora e distância de caminhamento.
A carga de incêndio específica pode contribuir para o enquadramento do risco, mas a seleção de extintores deve observar a IT 21/2025.
A análise deve considerar não apenas a quantidade de material combustível, mas também sua classe de fogo.
Carga de incêndio e segurança estrutural
A carga de incêndio está relacionada à severidade potencial do incêndio e pode influenciar análises de segurança estrutural contra incêndio.
A IT 08/2025 trata do TRRF e da resistência ao fogo de elementos estruturais e de compartimentação.
Ambientes com maior carga de incêndio podem gerar exigências ou cenários mais severos, conforme os critérios normativos aplicáveis.
Carga de incêndio e isolamento de risco
A carga de incêndio também pode influenciar a análise de isolamento de risco entre edificações.
Na IT 07/2025, a severidade do incêndio, as fachadas, aberturas e separações podem ser analisadas considerando a carga de incêndio.
Edificações com maior carga podem exigir maior cuidado na distância de separação, paredes resistentes ao fogo ou proteção de aberturas.
Carga de incêndio e PTS
No Projeto Técnico Simplificado, a carga de incêndio pode interferir no enquadramento e nas medidas exigidas.
A IT 42/2025 deve ser analisada em conjunto com o Decreto 69.118/2024, as tabelas de exigências e a IT 14.
Um erro frequente é usar PTS apenas com base na área, sem verificar ocupação, riscos específicos, carga de incêndio, armazenamento ou sistemas que descaracterizam o rito simplificado.
Carga de incêndio e classificação de risco
O Decreto 69.118/2024 classifica o potencial de risco pela carga de incêndio em baixo, médio e alto.
No entanto, a classificação de risco da edificação é resultado de uma leitura mais ampla, envolvendo também:
- ocupação;
- altura;
- área;
- lotação;
- riscos específicos;
- medidas exigidas;
- uso real;
- armazenamento;
- sistemas existentes.
A carga de incêndio específica é uma peça importante desse conjunto, mas não a única.
O que deve constar no memorial de carga de incêndio específica?
Um memorial técnico deve apresentar, conforme o caso:
- identificação da edificação;
- ocupação ou uso;
- grupo e divisão;
- área considerada;
- método adotado;
- anexo utilizado;
- valor tabelado ou calculado;
- justificativa de similaridade, quando aplicável;
- identificação de depósitos ou áreas de armazenamento;
- altura de armazenamento, quando relevante;
- materiais combustíveis levantados;
- massas consideradas;
- potenciais caloríficos;
- fórmula aplicada;
- resultado em MJ/m²;
- classificação do potencial de risco;
- conclusão técnica;
- responsabilidade técnica.
O memorial deve permitir que outra pessoa entenda por que aquele valor foi adotado.
O que deve constar no projeto?
No projeto de segurança contra incêndio, a carga de incêndio deve aparecer de forma clara quando for relevante para o enquadramento.
Pode ser apresentada em:
- quadro de dados da edificação;
- memorial descritivo;
- memorial de carga de incêndio;
- plantas com identificação de ocupações;
- tabela de áreas e usos;
- documentação de depósitos;
- formulário ou campos do processo;
- anexos técnicos;
- planilha de cálculo determinístico.
O valor deve ser coerente com a ocupação e com as medidas de segurança indicadas.
Como criar uma tabela interna de carga de incêndio no Guia SEGCI?
Para fins editoriais, o Guia SEGCI pode criar uma tabela de apoio com campos como:
| Campo | Descrição |
|---|---|
| Grupo | Grupo de ocupação conforme decreto |
| Divisão | Divisão da ocupação |
| Uso específico | Atividade ou uso descrito na IT 14 |
| CNAE de referência | Quando houver |
| Valor em MJ/m² | Valor da IT 14 |
| Método | Anexo A, B ou C |
| Observação | Cuidados de aplicação |
| Link interno | Página da IT 14 ou artigo relacionado |
Essa tabela deve remeter o leitor à IT 14/2025 completa para consulta oficial e atualização.
Erros comuns na carga de incêndio específica
Alguns erros aparecem com frequência:
- usar o CNAE sem verificar o uso real;
- escolher o menor valor da tabela por conveniência;
- aplicar Anexo A em depósito que deveria usar Anexo B;
- ignorar altura de armazenamento;
- não separar ocupações mistas;
- não identificar áreas de risco;
- calcular média em área grande demais;
- desconsiderar materiais combustíveis relevantes;
- não justificar ocupação por similaridade;
- usar cálculo determinístico sem memória de cálculo;
- não registrar massa e potencial calorífico;
- copiar valor antigo de projeto anterior;
- não revisar carga após mudança de uso;
- tratar atividade econômica de baixo risco como carga de incêndio baixa;
- esquecer que reformas e aumento de estoque podem alterar o enquadramento.
A carga de incêndio específica precisa ser rastreável, coerente e tecnicamente justificável.
Perguntas frequentes
O que é carga de incêndio específica?
É a carga de incêndio dividida pela área de piso considerada, expressa em MJ/m². Ela representa o potencial calorífico dos materiais combustíveis por metro quadrado.
Qual é a unidade da carga de incêndio específica?
A unidade mais usada é megajoule por metro quadrado, representada por MJ/m².
Qual norma traz a tabela de carga de incêndio?
No Estado de São Paulo, a tabela está na IT 14/2025 – Carga de incêndio nas edificações e áreas de risco.
O que é o Anexo A da IT 14?
É a tabela de cargas de incêndio específicas por ocupação, usada para consultar valores em MJ/m² conforme o uso específico da edificação.
O que é o Anexo B da IT 14?
É a tabela de carga de incêndio relativa à altura de armazenamento, aplicada especialmente às ocupações do Grupo J, como depósitos.
O que é o Anexo C da IT 14?
É o método de cálculo determinístico da carga de incêndio específica, baseado na massa dos materiais combustíveis, potencial calorífico e área de piso.
Como calcular carga de incêndio específica?
Pelo método determinístico, usa-se a fórmula qfi = Σ(Mi × Hi) / Af, em que Mi é a massa do material, Hi é o potencial calorífico e Af é a área de piso.
O CNAE define a carga de incêndio?
Não sozinho. O CNAE é referência da atividade, mas a análise deve considerar o uso real, ocupações, depósitos, materiais combustíveis e riscos existentes.
Depósito usa Anexo A ou Anexo B?
As ocupações do Grupo J devem adotar obrigatoriamente a tabela do Anexo B, relacionada à altura de armazenamento.
Carga de incêndio baixa é igual a atividade econômica de baixo risco?
Não. Carga de incêndio baixa é classificação técnica em MJ/m². Atividade econômica de baixo risco é classificação administrativa de licenciamento.
Qual valor é considerado risco baixo?
Pelo Decreto 69.118/2024, carga de incêndio até 300 MJ/m² corresponde a potencial de risco baixo.
Qual valor é considerado risco médio?
Pelo Decreto 69.118/2024, carga de incêndio acima de 300 e até 1.200 MJ/m² corresponde a potencial de risco médio.
Qual valor é considerado risco alto?
Pelo Decreto 69.118/2024, carga de incêndio acima de 1.200 MJ/m² corresponde a potencial de risco alto.
Conclusão
A carga de incêndio específica é um dos principais parâmetros para análise de segurança contra incêndio. Ela expressa, em MJ/m², o potencial calorífico dos materiais combustíveis em relação à área analisada.
Na IT 14/2025, a carga de incêndio específica pode ser obtida por tabela, por altura de armazenamento ou por cálculo determinístico, conforme o caso. O Anexo A atende grande parte das ocupações por uso específico. O Anexo B é obrigatório para ocupações do Grupo J, especialmente depósitos. O Anexo C permite o levantamento técnico da carga real dos materiais combustíveis.
O ponto central é que o valor adotado precisa ser coerente com o uso real da edificação. CNAE, ocupação, depósito, altura de armazenamento, materiais combustíveis, área considerada e riscos específicos devem ser analisados em conjunto.
A carga de incêndio específica influencia a classificação do potencial de risco e pode afetar medidas como hidrantes, sprinklers, segurança estrutural, isolamento de risco, PTS, AVCB e CLCB.
Mais do que copiar um número da tabela, o responsável técnico deve justificar o critério adotado, registrar a fonte normativa e manter rastreabilidade do valor usado no projeto.
Consulte a IT 14/2025 completa no Guia SEGCI e acompanhe os próximos conteúdos da série sobre tabela de carga de incêndio, Anexo A, Anexo B, cálculo determinístico, depósitos e classificação de risco.